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Quanto custa abrir uma ótica: os números que ninguém mostra
Quase todo mundo que abre uma ótica calcula o aluguel, a reforma e as armações — e esquece o dinheiro que fica parado esperando o cliente pagar. É por aí que a maioria aperta no quarto mês, com a loja cheia e o caixa vazio.
Este artigo não vende sonho nem promete número mágico. Ele mostra onde o dinheiro entra quando você monta uma ótica, na ordem em que costuma pesar, e o que costuma ser subestimado.
1. O ponto e a reforma
Ótica vive de rua com passagem. Um ponto barato numa rua sem movimento sai caro, porque você vai gastar em anúncio o que economizou no aluguel. Na conta entram: luvas (quando existe), depósito ou fiança, pintura, elétrica, iluminação, ar-condicionado e a fachada.
Ilumine bem. Óculos é produto que se vende no espelho: vitrine escura reduz venda de armação cara.
2. O estoque inicial — e a armadilha dele
É a maior fatia, e é a que mais engana. Duas coisas para decidir antes de comprar:
- Quantidade não é sortimento. 400 armações parecidas vendem menos que 200 bem escolhidas em faixas de preço diferentes.
- Consignação existe. Vários fornecedores trabalham com consignado ou com prazo longo na primeira compra. Isso muda o caixa do primeiro semestre inteiro.
Regra prática: monte três faixas — entrada, meio e alto — e conte quantas peças você tem em cada uma. Se 80% do mostruário for de uma faixa só, você está escolhendo o seu cliente sem perceber.
3. Equipamentos
O mínimo para funcionar com dignidade:
- Lensômetro — para conferir o que chega do laboratório e ler o óculos que o cliente já usa. Não é opcional.
- Mesa de montagem e ferramentas — alicates, chaves, parafusos, plaquetas, ultrassom para limpeza.
- Medição da centragem — régua de PD serve, mas centralizar por foto reduz erro e impressiona o cliente.
- Computador, impressora e leitor de código.
Bloco de surfaçagem, biselador e afins só entram quando você decide montar dentro de casa. No começo, o laboratório parceiro sai mais barato do que a máquina parada.
4. O que a maioria esquece: capital de giro
Aqui mora o perigo. A ótica vende em maio, entrega em maio — e recebe em julho, agosto e setembro, se vender no crediário ou no cartão parcelado. Mas o laboratório cobra em 30 dias, o fornecedor da armação em 45, o aluguel todo dia 5 e o vendedor todo dia 5 também.
A conta que salva o negócio: some tudo que sai por mês com a loja fechada (aluguel, salários, energia, contador, sistema) e multiplique por seis. Esse dinheiro precisa existir separado, antes de abrir. Não é reserva de luxo — é o tempo que a loja leva para andar sozinha.
5. O custo fixo do mês
Depois de aberta, o que consome caixa todo mês: aluguel e condomínio, energia (vitrine acesa é cara), salários e encargos, contador, impostos, taxa da maquininha, internet, telefone e o sistema de gestão.
Anote isso num lugar só e olhe uma vez por mês. Ótica não quebra por causa de uma despesa grande; quebra por causa de dez pequenas que ninguém somou.
6. O que dá para adiar sem prejuízo
- Laboratório próprio de montagem
- Segunda vitrine e reforma bonita da parte de trás
- Estoque de lentes prontas em grande volume — comece com o giro real
- Uniforme, brinde, sacola personalizada
E o que não dá para adiar: lensômetro, um controle de estoque de verdade e a organização da ordem de serviço. Sem isso, a loja funciona por uns meses e depois começa a perder óculos, prazo e cliente.
7. Quando a conta fecha
Faça o caminho ao contrário. Pegue o custo fixo mensal, some o que você quer tirar de retirada e divida pela margem média que sobra depois de pagar lente, armação e imposto. O resultado é quanto você precisa vender por mês para não ter prejuízo.
Se esse número exigir mais óculos por dia do que passa gente na sua porta, o problema não é esforço — é o ponto ou o preço. Melhor descobrir isso no papel do que no oitavo mês.
